As componentes de um esforço de soberania em IA não obedecem ao mesmo relógio. Os chips podem comprar-se em dezoito meses; a energia, os terrenos ligados à rede, a perícia de treino em grande escala e as instituições de decisão exigem cinco a dez anos. Essa assimetria está ausente de um debate que se reduziu à questão de saber se a Europa deve lançar-se num sprint para a fronteira. A tese do sprint assenta em duas apostas. A primeira é que a corrida ao modelo mais potente continuará a ser a disputa decisiva. A segunda é que Washington deixará à Europa tempo suficiente para comprar os chips de que a recuperação necessita. É concebível uma alternativa: uma IA tornada mercadoria, em que basta comprar os modelos num mercado cada vez mais amplo e acessível, como sugere o modelo chinês Kimi 3. Ninguém pode hoje resolver a questão, e uma estratégia de independência deve por isso assentar nos ativos lentos, aqueles que amanhã conferirão verdadeira liberdade de escolha. Este artigo expõe uma estratégia indiferente à evolução da tecnologia e propõe investir desde já no que será útil em todos os cenários, cartografar os riscos mais críticos para lhes poder responder, construir as alavancas económicas e geopolíticas que tornarão essas respostas credíveis, preparar o esforço de fronteira sem se comprometer às cegas, e dotar a Europa dos instrumentos de governação necessários para decidir no momento certo.
01 | Um debate refém da incerteza tecnológica
Publicado a 8 de julho de 2026 pela revista Le Grand Continent, «Operação Prometeu: a França pode vencer a corrida da IA. Quanto custaria?» é um contributo raro para as atuais discussões europeias sobre política de IA. Onde a maior parte dos apelos a uma IA soberana se fica pelo voto piedoso, ele oferece uma estratégia coerente e quantificada, que reconhece os seus riscos e os seus limites. É aqui tratado como a formulação mais sólida disponível da tese maximalista, não como um adversário: partilhamos uma mesma ambição, e o desacordo exposto a seguir incide sobretudo na sequência.
O debate francês e europeu sobre a IA soberana organizou-se em torno de dois polos aparentemente irreconciliáveis. De um lado, um fatalismo sofisticado: a Europa não tem nem o capital, nem os talentos, nem a base industrial para fechar o fosso tecnológico. A racionalidade económica dita, portanto, comprar os melhores modelos americanos e abandonar ambições de autonomia julgadas ruinosas. Do outro, um prometeísmo assumido, de que a Operação Prometeu é a expressão mais acabada: 700 mil milhões de dólares em três anos, 12 gigawatts de capacidade de computação até 2029 e um «Prometheus Act» que suspende as regras ordinárias de planeamento e de contratação pública, tudo para elevar a França ao terceiro lugar na fronteira.
Estas posições opostas assentam em respostas contraditórias à mesma pergunta, raramente formulada de forma explícita: a que velocidade continuarão os modelos a melhorar?
Há um primeiro futuro possível: os ganhos tornam-se marginais, a distância entre os melhores modelos e os seus perseguidores encurta-se, e a inteligência artificial torna-se progressivamente uma mercadoria, comparável à eletricidade, escolhida pelo preço. Chamemos-lhe o cenário da comoditização. Nesse mundo, a corrida à fronteira é um poço sem fundo sem recompensa, e os fatalistas acabam por ganhar a discussão.
Num segundo futuro possível, as capacidades continuam a avançar, os melhores modelos são usados para treinar os seguintes e para automatizar a própria investigação. O progresso tecnológico torna-se exponencial e o fosso alarga-se em vez de se fechar. Chamemos-lhe o cenário da fuga. Nesse mundo, uma posição na fronteira torna-se um atributo de poder comparável às armas nucleares, e o prometeísmo é estrategicamente correto.
02 | Uma questão sem resposta assente
Ninguém sabe hoje que cenário prevalecerá. Quem lê a tendência como incremental aponta para o estreitamento dos fossos na maioria dos benchmarks públicos. A última vaga de modelos de baixo custo, entre os quais o Muse Spark 1.1, lançado pela Meta a 9 de julho a um quinto do preço dos modelos premium, é o exemplo mais recente. Avança ainda argumentos de fundo. Primeiro, um dado nível de capacidade replica-se a custo decrescente: a destilação e a compressão de modelos entregam a maior parte do desempenho de ontem por uma fração da computação original. Segundo, as barreiras à entrada neste segmento comoditizado vão-se adelgaçando, à medida que as receitas de treino circulam e as arquiteturas abertas proliferam, energia e chips à parte. Terceiro, o paradigma atual dos modelos pode estar a atingir os seus limites: Yann LeCun defende há muito que os grandes modelos de linguagem são um beco sem saída no caminho para a inteligência artificial geral, e que será necessária uma rutura arquitetural, o que reporia a corrida a zeros.
Os otimistas tecnológicos respondem que esses benchmarks não medem o que importa. Saturam-se. Tornados alvos de otimização, deixam de medir seja o que for. É a lei de Goodhart, e os melhores modelos estão já a tocar o teto do que esses testes conseguem avaliar. À mesma conclusão chegou o primeiro Frontier AI Expert Forum convocado pela Comissão Europeia em abril de 2026. Os benchmarks não captam nem as tarefas de longo horizonte confiadas aos agentes nem os saltos de capacidade do tipo Mythos. Os otimistas acrescentam que a preferência dos clientes pelos melhores modelos se vê claramente nos números de receitas, um ponto corroborado pelo Expert Forum do AI Office europeu, que regista que o comportamento de compra industrial revela já uma preferência marcada pelos sistemas de fronteira face aos seus perseguidores imediatos. O fosso de receitas entre a Anthropic e a Mistral alargou-se em vez de se estreitar. Notam ainda que o patamar anunciado continua a não aparecer nos dados, que a duração das tarefas que os agentes conseguem completar de fio a pavio duplica aproximadamente a cada sete meses segundo a METR, a ritmo crescente, e que as barreiras à entrada, tanto em computação como em talento excecional, se contam entre as mais altas da história industrial.
A situação pode resumir-se num paradoxo que dissolve parte da controvérsia: os ganhos de eficiência tornam barato, ano após ano, um dado nível de capacidade (o que o Mythos custava ontem custará quase nada amanhã), mas não tornam barata a fronteira em si, cujo custo continua a subir. Os dois campos podem, portanto, ter razão ao mesmo tempo: comoditização rápida das capacidades de ontem a par de uma inflação contínua do custo das de amanhã. A questão é saber se as capacidades de amanhã justificarão o seu preço e se revelarão necessárias. Esse desacordo atravessa os laboratórios tanto quanto a base de investidores.
03 | Um método para testar a robustez da estratégia europeia
Daqui decorre uma consequência metodológica. Perante uma incerteza profunda, uma estratégia racional não procura necessariamente a decisão ótima dentro de um cenário predefinido; combina medidas robustas, reversíveis e complementares, para que um cenário adverso não produza uma perda coletiva catastrófica. A teoria da decisão tem um nome para este critério: o minimax regret. A melhor estratégia não é a que mais rende num dado mundo, mas a que não é catastrófica em nenhum. Consiste em comprar opções em vez de assumir compromissos irreversíveis, e em converter a opção em compromisso apenas quando a incerteza se tiver resolvido. É face a este critério, a robustez em ambos os cenários, que poremos à prova o plano maximalista, o fatalismo do campo da comoditização e a nossa própria proposta.
Esta leitura do momento europeu conta já com respaldo institucional. O Expert Forum convocado pelo AI Office europeu, apoiado em mais de uma centena de especialistas em inteligência artificial avançada, chega a duas conclusões. A primeira é que 2026 será decisivo para a Europa, que deve conceber e adotar uma estratégia coerente à escala da União e dos Estados-Membros, tendo em conta as trajetórias de capacidades, de mercado e de infraestruturas e as suas implicações para a soberania europeia. A segunda é que, em ambos os cenários, a Europa deve reforçar a sua capacidade soberana de «aceder, escolher, controlar e explorar» os modelos de fronteira, o que pressupõe uma visão clara das alavancas que detém, ou poderia construir, em cada camada do stack. Nenhuma das duas tarefas foi ainda cumprida, e os próximos meses dirão se Bruxelas e os Estados-Membros as assumem ou as deixam dissolver-se em mais uma ronda de comunicados e anúncios. A proposta aqui esboçada responde a ambas as conclusões: uma estratégia concebida para se adaptar aos dois cenários e para resolver a questão da fronteira no momento certo, e o mapa das dependências e das alavancas que os especialistas reclamam.
04 | O diagnóstico de dependência está correto, e a acusação contra a inação também
O diagnóstico geoeconómico subjacente à tese maximalista está certo. A dependência dos modelos de fronteira é hoje uma exposição estratégica de primeira ordem.
As restrições americanas impostas na primavera de 2026 aos modelos mais avançados da Anthropic, e o seu levantamento parcial no final de junho, transferiram o acesso aos modelos de fronteira para um regime semelhante ao dos semicondutores: revogável sem pré-aviso, deliberadamente ambíguo, administrativamente discricionário. A leitura mais plausível do episódio é, de resto, a mais perturbadora: tudo indica que um alerta de segurança, provavelmente ligado às capacidades de hacking do modelo, levou a administração norte-americana a procurar retirar o acesso a todos os utilizadores, americanos incluídos. Os controlos de exportação teriam sido o único instrumento jurídico disponível para o efeito. A Europa foi dano colateral. Para lá do cenário de coerção dirigida, isto significa que o acesso europeu às capacidades avançadas depende agora de uma avaliação americana do risco interno, e que nenhum comportamento, nenhuma concessão comercial e nenhuma boa vontade diplomática o podem garantir.
O diagnóstico precisa de ser completado com um mecanismo que torna a ameaça estrutural e não meramente transitória e política: a escassez de computação. Fornecer um modelo de fronteira não é como vender software, em que a cópia marginal nada custa. Cada resposta de um grande modelo consome tokens, a unidade de conta do consumo de IA (o equivalente do quilowatt-hora para a eletricidade), e por trás de cada token há computação real. Os grandes laboratórios vivem numa escassez crónica e arbitram constantemente entre clientes empresariais, subscrições de consumo e as suas próprias necessidades de investigação. Num mundo de tokens racionados, o acesso dos clientes estrangeiros é a variável de ajustamento natural por razões puramente económicas, antes mesmo de qualquer intenção política entrar em cena. A hierarquia de alocação observada nos laboratórios líderes confirma-o: a computação disponível serve primeiro os contratos do governo norte-americano, depois as empresas, depois o grande público, como mostram as interrupções de serviço diferenciadas nos picos de carga. As restrições ao acesso dos clientes estrangeiros não esperaram por uma política deliberada dos laboratórios. É precisamente isso que torna o mecanismo estrutural e não intencional. Anton Leicht disse-o antes do episódio desta primavera: a IA não criará abundância, mas escassez.
A assimetria de alavancas entre a União e os Estados Unidos é igualmente real. Cortar o acesso a um modelo é instantâneo, ao passo que bloquear as exportações da ASML, a empresa neerlandesa que constrói as máquinas indispensáveis à produção de chips avançados, é uma alavanca lenta cujos efeitos só se fazem sentir quando os stocks se esgotam. Há também que pesar o risco de retaliação noutras frentes: os Estados Unidos podem responder a um bloqueio da ASML com restrições comerciais ou retirando as garantias de segurança ao continente e à Ucrânia. A Europa dispõe de uma alavanca, mas não de uma alavanca suficiente.
A advertência contra uma leitura ingénua dos laboratórios chineses é igualmente justificada. A sua rápida recuperação deve muito à destilação, uma técnica que consiste em interrogar em grande escala um modelo avançado para treinar o seu próprio com as respostas dele, por outras palavras, em andar à boleia da computação financiada por terceiros. Isso nada estabelece sobre a fronteira ser barata para um novo entrante europeu. Deve acrescentar-se uma consequência adicional, raramente extraída: os laboratórios americanos e o governo dos Estados Unidos têm agora todo o interesse em fechar a porta à destilação, apertando os controlos de identidade dos utilizadores e restringindo o acesso. A via do seguidor, alcançar os líderes a baixo custo bebendo dos seus modelos, está a fechar-se. Isso torna ainda mais valiosa uma capacidade de treino autónoma.
05 | Três incertezas num sprint de fronteira a três anos
Três características de qualquer sprint de fronteira a três anos merecem discussão, e a Operação Prometeu torna-as invulgarmente visíveis porque as quantifica.
1. A primeira diz respeito ao calendário
O plano fixa as suas prioridades com base em três anos de arranque alimentados por um fluxo ininterrupto de entregas de chips americanos, num momento em que a sua própria visibilidade dá a Washington todos os incentivos para o travar. O dispositivo é, assim, maximamente vulnerável exatamente quando está maximamente exposto. É difícil sustentar em simultâneo que a interdependência comercial não pode proteger o nosso acesso aos modelos e que garantirá o fluxo de componentes bem mais estratégicas. Duas objeções a esta leitura, levantadas pelos autores do plano, merecem ser levadas a sério. A primeira: Washington preferiu até agora vender; a atual administração aliviou parte das restrições herdadas e a Nvidia faz um lobbying eficaz a favor dos mercados abertos. Mas uma política discricionária favorável continua a ser uma política discricionária, e o risco de que mude é o risco principal. A segunda: um esforço soberano deste tipo deveria ficar resguardado enquanto se constrói, e os Estados Unidos provavelmente não o levariam a sério nos primeiros anos. O argumento poderia valer para um programa politicamente discreto, mas não se ajusta a um plano que reivindica 12 gigawatts, um estatuto de exceção e um tratado multilateral, isto é, a máxima publicidade.
2. A segunda característica diz respeito à economia da recuperação tecnológica
O capital compra recuperação, mas devagar, enquanto o custo da fronteira duplica a cada sete meses; ao fim de três anos, o alvo ter-se-á deslocado várias ordens de grandeza. Os exemplos recentes abundam, e a Meta fornece o mais eloquente. A empresa fez um esforço financeiro colossal que produziu apenas um reposicionamento no segmento intermédio numa base preço-desempenho: capaz e rentável, mas longe da fronteira absoluta. Três anos de investimentos entre os maiores do mundo compraram um lugar sólido no pelotão, bem atrás dos líderes. A trajetória da xAI e do Grok 4.5 confirma o padrão: para atingir o nível da geração anterior dos seus concorrentes, a xAI precisou de três anos de desenvolvimento, do apoio da SpaceX e da aquisição de fornecedores de software essenciais como a Cursor. O impulso de uma missão nacional é uma alavanca poderosa disponível apenas para estruturas estatais, como mostraram o Projeto Manhattan ou os primeiros anos do Comissariado francês para a Energia Atómica (CEA), mas a construção acumula encargos organizacionais que o próprio plano identifica como o seu principal fator limitante. O seu horizonte de três anos corresponde ao período em que os projetos sobrecapitalizados fracassam por rotina, por nunca terem aprendido a arbitrar sob restrição de recursos.
3. A terceira característica é o alvo em movimento
Apontar a 12 GW até 2029 é apontar ao ponto onde os líderes mundiais se encontravam no final de 2026. Ao ritmo atual de expansão, a fronteira situar-se-á várias ordens de grandeza acima desse nível quando o plano amadurecer. O Expert Forum do AI Office europeu descreve uma capacidade mundial de computação que duplica aproximadamente a cada sete meses; os maiores sítios planeados ultrapassarão cada um os 3 gigawatts já em 2027. Apontar a 12 gigawatts em 2029 é mirar o presente dos líderes, e provavelmente não o seu futuro. Mesmo pelas contas do próprio plano, alguns gigawatts não cobrirão a procura económica mundial. O projeto está, portanto, subdimensionado tecnologicamente sendo ao mesmo tempo esmagador em termos orçamentais, ao exigir entre 4,5% e 8% do PIB por ano. Para comparação, o Plano Messmer de 1974, que construiu o parque nuclear francês, mobilizou cerca de 1% do PIB para implantar em escala uma tecnologia já comprovada e cuja transferência inicial não era revogável trimestre a trimestre. Acrescente-se mais uma incerteza: segundo os especialistas consultados pela Comissão, nenhum modelo de negócio duradouro foi ainda demonstrado na fronteira. Algumas gerações recentes de modelos são rentáveis, mas as receitas espetaculares dos líderes continuam a fazer-se acompanhar de aumentos de capital massivos e de perdas operacionais persistentes. Apostar 700 mil milhões numa posição cuja rentabilidade comercial permanece por provar é empilhar uma aposta sobre outra. No cenário da comoditização, o sprint investe centenas de milhares de milhões para conquistar uma fronteira tecnológica cujo valor de mercado se afunda. No cenário da fuga, arrisca-se a ficar pendurado na boa vontade do seu fornecedor americano de chips no momento mais crítico da sua construção.
As notícias de meados de julho dão a essa incerteza um rosto concreto. A Moonshot AI lançou o Kimi K3, um modelo de 2,8 biliões de parâmetros cujos pesos deverão poder ser descarregados livremente até ao final do mês. As primeiras avaliações independentes colocam-no ao nível de vários grandes sistemas fechados recentes, embora fique atrás dos melhores, em particular em certas tarefas específicas. A sua disponibilidade iminente em formato aberto e o seu preço de acesso competitivo elevam, ainda assim, de forma acentuada a probabilidade de um cenário de comoditização, isto é, de um quase-monopólio replicável, amplamente acessível e que exerce uma pressão contínua sobre o preço dos modelos proprietários.
Esta abertura pode ler-se como uma estratégia de poder industrial: deslocar a concorrência do modelo proprietário para o ecossistema, acelerar a adoção mundial das arquiteturas chinesas e comprimir as receitas que financiam a corrida à computação dos laboratórios americanos. Em igualdade de circunstâncias, a situação assemelha-se à de outros setores industriais europeus que enfrentaram a mesma concorrência a preços subsidiados, produzindo um efeito de roquete geoeconómico bem identificado: uma oferta abundante, apoiada em capital estratégico, pode tornar economicamente inviável a produção concorrente muito antes de alcançar uma posição dominante.
O Kimi K3 revela assim um terceiro risco para qualquer sprint de fronteira. Depois do risco tecnológico de falhar uma fronteira que não para de se mover, e do risco geopolítico de perder o acesso aos chips de que a recuperação necessita, vem o risco comercial de ter êxito demasiado tarde num mercado cujos preços colapsaram. O fecho financeiro de um plano destes pressupõe uma trajetória progressivamente autossustentada em que a procura privada toma o lugar do Estado uma vez atingida a fronteira. Se capacidades próximas da fronteira permanecerem duradouramente disponíveis em formato aberto, o laboratório francês poderia atingir o seu objetivo técnico sem nunca alcançar o ponto de equilíbrio económico. O ativo de 700 mil milhões de dólares depreciar-se-ia antes mesmo de se concretizar.
Essa consequência aplica-se também à nossa própria proposta. Num mercado suscetível de ser duradouramente distorcido por estratégias de preços e de abertura apoiadas em capital geopolítico, a prioridade deve ir para os ativos cujo valor melhor resiste a um colapso dos preços dos modelos: energia e terrenos ligados à rede, uma frota de inferência multimodelo garantida por compromissos de compra, orquestração, capacidade de avaliação e perícia de treino. Sobretudo, há que aceitar que a manutenção de uma capacidade nacional de treino provavelmente não assentará apenas no mercado. Como uma indústria de defesa, terá de ser sustentada por contratação pública plurianual.
06 | O peso estratégico crescente da camada de orquestração
Há vários meses que o valor e o controlo estratégico migram para a camada de orquestração. O termo designa os sistemas que ligam os modelos aos dados e processos das organizações, assegurando a gestão da memória, o controlo de permissões, a certificação dos resultados e o encaminhamento das tarefas segundo o seu custo ou complexidade. Se os modelos são os motores da inteligência artificial, a orquestração é o chassis, a transmissão e o painel de instrumentos.
Os sinais desta deslocação são numerosos. A OpenRouter, plataforma de encaminhamento que abrange várias centenas de modelos, ilustra a rapidez com que o mercado está a reavaliar esta camada: avaliada em 1,3 mil milhões de dólares em maio de 2026 numa ronda liderada pelo fundo de crescimento da Alphabet e pelo braço de capital de risco da Nvidia, estará, segundo o Wall Street Journal, em conversações de aquisição com a Stripe por cerca de 10 mil milhões apenas dois meses depois. Do mesmo modo, o sucesso comercial dos laboratórios já não assenta na venda de tokens em bruto, mas na implantação de produtos agênticos que envolvem os modelos em fluxos de trabalho estruturados. E o aparecimento de ofertas de baixo custo como o Muse Spark ou o modelo de pesos abertos Inkling acelera a adoção de encaminhadores multimodelo capazes de selecionar a solução mais barata para cada pedido. Ao tornar as arquiteturas tecnológicas intercambiáveis, a orquestração exerce uma pressão contínua em baixa sobre os modelos. Grande parte da capacidade de um modelo é, na verdade, latente, revelada ou perdida consoante a qualidade do sistema que o rodeia. Duas ressalvas se impõem. No topo da hierarquia de capacidades, os stacks integrados dos laboratórios líderes conservam um avanço claro sobre as montagens equivalentes construídas em torno de modelos abertos: a intercambialidade é plenamente eficaz para as tarefas de rotina, mas ainda não para os fluxos de trabalho autónomos mais exigentes. E o encaminhamento é, antes de mais, uma questão de otimização económica: grandes gestoras de ativos francesas implantaram gateways internos que encaminham cada pedido dos seus programadores para o modelo mais barato capaz de o tratar, alinhando a computação consumida com a complexidade da tarefa.
Esta deslocação redefine as relações de dependência. É agora na camada de orquestração que cristalizam a adesão dos utilizadores, a memória institucional e os custos de mudança. Uma economia que domina esta camada aplicacional pode substituir um fornecedor de modelos por outro a baixo custo, como se troca um motor sob o mesmo chassis. Inversamente, uma economia que abdica do seu controlo permanece cativa mesmo que disponha de um modelo soberano: o que retém o cliente já não é o algoritmo em bruto, mas o ecossistema que o rodeia. A soberania no uso decide-se, portanto, primeiro na orquestração.
Dois planos devem, ainda assim, manter-se distintos. Economicamente, a camada de orquestração é onde se cria o valor acrescentado. Geoeconomicamente, os modelos são substituíveis uns pelos outros através da camada de orquestração, que permite passar de um fornecedor americano para um chinês, europeu ou aberto, desde que exista uma alternativa de recurso. É precisamente isso que o alicerce que propomos abaixo se destina a garantir. Restam por identificar e neutralizar dois riscos próprios desta camada: um fornecedor de modelos pode degradar o acesso dos orquestradores concorrentes às interfaces de que dependem, e os operadores de orquestração ligados aos laboratórios por participações acionistas podem inclinar o terreno a favor da casa-mãe.
Esta camada é terreno favorável para a Europa, ao passo que os modelos de fronteira lhe têm escapado até agora. A integração empresarial é uma questão de software de gestão, de conhecimento dos processos e de perícia setorial, o cerne da competência de empresas como a SAP e a Dassault Systèmes. Aqui, o bilhete de entrada mede-se em capital humano e perícia industrial, não em computação. A urgência não é menos real: os laboratórios americanos investem agora agressivamente nesta camada aplicacional, e a janela pode fechar-se depressa.
Uma estratégia robusta nesta frente resiste, além disso, a ambos os cenários tecnológicos. Se os modelos se comoditizarem, as margens e o valor refugiar-se-ão na camada de orquestração. Se a rutura tecnológica prosseguir (a fuga), esta camada determina a aptidão de uma economia para converter a potência bruta da IA em ganhos reais de produtividade. Em igualdade de acesso aos grandes modelos, o fosso de valor alargar-se-á consoante a qualidade da integração, um fosso que já separa as empresas americanas das suas congéneres europeias.
A orquestração não é uma panaceia. Completa a carteira estratégica, mas não compensa a ausência de acesso aos modelos de potência (da classe Mythos), indispensáveis à ciberdefesa e às informações. Corrige, porém, um enviesamento persistente do debate público: ao fixar a atenção na fronteira tecnológica, negligencia-se o segmento onde as forças europeias são reais e as barreiras à entrada transponíveis. Este trabalho não exige financiamento desmesurado; exige a ativação de alavancas de execução já disponíveis: contratação pública exigente em matéria de soberania para as camadas aplicacionais críticas, obrigações multifornecedor para garantir a continuidade de negócio, e a estruturação de bens comuns de dados setoriais para proteger a vantagem europeia no terreno.
07 | O teste de robustez aplicado ao fatalismo e à fuga
A abordagem fatalista falha perante os desafios acima identificados. No cenário da comoditização, priva a Europa à partida das posições industriais que poderia ocupar num mercado tornado acessível. No cenário da fuga, deixa-a indefesa face a restrições súbitas de acesso.
Antes de expor a nossa proposta, antecipemos a primeira objeção que ela encontrará. A exigência de robustez que defendemos deve enfrentar a sua crítica mais séria: uma estratégia de recurso construída sobre um ator abaixo da fronteira tecnológica, como a Mistral, só será válida no cenário em que se revela desnecessária? Se a comoditização acontecer, o recurso é fácil mas supérfluo; se a fronteira se afastar, um modelo com dezoito meses de atraso torna-se obsoleto para os usos avançados. A objeção exige uma resposta em duas partes.
Primeiro, o risco principal contra o qual procuramos precaver-nos não é o atraso tecnológico, mas a perda de acesso, ameaça latente em ambos os cenários. Em caso de corte, a questão já não é competir com o estado da arte mundial, mas preservar um mínimo de autonomia. Um modelo soberano próximo da fronteira sem a alcançar será sempre infinitamente mais útil para as funções vitais do Estado e para a continuidade económica do que nada. A experiência ucraniana é eloquente: sem dominar a fronteira dos sistemas autónomos, o seu exército transformou as suas capacidades militares com drones construídos a partir de componentes tecnológicas acessíveis e integrados no terreno.
Segundo, aceitamos que uma simples lógica de seguro não basta no cenário da fuga. Se as capacidades de fronteira são um atributo de soberania de primeira ordem, a Europa terá, mais tarde ou mais cedo, de as possuir ou de garantir um acesso estratégico a elas. É por isso que a nossa proposta não se confina à proteção: está estruturada como uma doutrina de opção, no sentido financeiro do termo. Onde o seguro compensa uma perda a posteriori, uma opção compra hoje, por uma fração do seu custo real, o direito de entrar na corrida no momento que se escolher. Todo o desafio da trajetória que propomos consiste, pois, em determinar o que deve ser construído agora para assegurar essa opção, sem pagar antecipadamente o seu preço proibitivo.
08 | A nossa proposta: um alicerce industrial que se aguenta em todos os cenários tecnológicos
O plano que propomos tem em conta uma assimetria temporal habitualmente ignorada no debate sobre a IA soberana. As componentes de um esforço de fronteira não partilham o mesmo horizonte: os chips podem ser adquiridos em dezoito meses, uma vez assegurados o capital e o acesso às alocações, enquanto a energia, os terrenos ligados à rede, a perícia de treino em grande escala, os protocolos de avaliação e os órgãos de decisão exigem cinco a dez anos de construção. O plano maximalista propõe financiar de imediato o tijolo rápido e caro: a computação de treino de fronteira. A incerteza quanto ao seu valor parece-nos demasiado grande. Propomos, em vez disso, começar pelos andares inferiores do foguetão: construir agora, a custo controlado, a infraestrutura lenta que conservará o seu valor seja qual for o cenário final.
Esta trajetória alternativa assenta num alicerce de cinco eixos prioritários.
1. Energia e terrenos ligados à rede
Seja qual for o cenário tecnológico, a Europa precisará de inferência em escala massiva, e a eletricidade descarbonizada abundante é o único elo da cadeia de valor onde a França detém uma vantagem comparativa mundial, desde que adapte a sua política energética. O fosso de competitividade está documentado: em 2025, os preços da eletricidade industrial na União Europeia eram, em média, o dobro dos dos Estados Unidos e uma vez e meia os da China. A energia, as licenças e a ligação à rede, mais do que o capital ou os chips, eram o verdadeiro estrangulamento da computação na Europa. Corrigi-lo passa por acelerar as ligações, expurgar os projetos-fantasma que entopem as filas, criar zonas industriais dedicadas para reduzir os prazos de licenciamento a alguns meses, instituir um balcão único e relançar o nuclear. Esta componente do plano maximalista deve ser executada na íntegra, porque se aguenta mesmo que nenhum modelo venha alguma vez a ser construído em solo europeu. O seu custo orçamental direto é modesto, uma vez que é sobretudo regulamentar; a aquisição de terrenos públicos e as garantias de rede representam algumas centenas de milhões de euros por ano.
2. Uma frota soberana de inferência
Ou seja, um conjunto de centros de dados dedicados ao funcionamento quotidiano dos modelos. No curto prazo, a Europa terá de aceitar depender aqui da Nvidia. Recusar comprar processadores americanos por razões de dependência seria confundir stock com fluxo: o risco estratégico reside nas entregas futuras e nos acessos de software revogáveis, não na infraestrutura física já instalada. A soberania desta frota não depende da origem das suas componentes, mas de dois imperativos: a localização em solo europeu e a operação exclusiva por atores europeus. Um centro de dados situado na Europa mas operado por um terceiro estrangeiro pode ser desligado à distância e instantaneamente; um centro gerido por uma empresa europeia com hardware importado oferece, na pior das hipóteses, vários anos de fôlego antes da obsolescência tecnológica, tempo suficiente para inverter a relação de forças. O dimensionamento não é utópico: mesmo as projeções de procura mais conservadoras indicam que, até 2028, as necessidades de inferência de um grande país europeu excederão largamente toda a capacidade atualmente planeada no continente. O perigo iminente é o subaprovisionamento, não a sobrecapacidade. A Nvidia e a AMD permanecem, por agora, incontornáveis, mas a soberania de hardware significa, no médio prazo, deslocar uma parte crescente da inferência para aceleradores especializados (ASIC) e, no mais longo prazo, dominar todo o stack: interligação, memória, encapsulamento, compiladores e bibliotecas, e não um chip isolado. Desenvolver desde já uma indústria europeia de aceleradores é o prolongamento natural da frota de inferência.
Para esta frota, visar 2 a 3 GW até 2030 representaria um investimento de 66–101 mil milhões de euros em cinco anos, segundo os custos unitários avançados pelo próprio plano Prometeu (cerca de 33,4 mil milhões de euros por gigawatt em propriedade e 800 milhões de euros por ano de custos operacionais). A ordem de grandeza impressiona, mas é o rigor da estrutura financeira que a torna credível.
A economia de uma frota destas gira em torno de duas variáveis críticas: as taxas de utilização e a depreciação acelerada dos chips, que perdem a maior parte do seu valor em quatro a cinco anos. O primeiro risco pode ser neutralizado através de clientes-âncora (anchor tenants). Estes clientes estratégicos asseguram o retorno da infraestrutura através de contratos firmes take-or-pay (o compromisso de pagar a capacidade reservada, seja ou não utilizada). Tais compromissos seriam subscritos pela contratação pública, pelo guardião de capacidade do terceiro eixo e pelas grandes empresas europeias cujos planos de continuidade exigem precisamente uma capacidade de recurso doméstica. O segundo risco gere-se através da estrutura de capital. O núcleo do sindicato deve reunir investidores de longo prazo (a Caisse des dépôts, banco público de investimento francês, o Banco Europeu de Investimento, fundos de infraestruturas) apoiados por uma tranche de primeira perda assumida pelo Estado para tranquilizar o capital privado, como defende com razão o plano Prometeu. Calibrada pelo risco de depreciação, essa participação pública representaria 10% a 20% do total, ou seja, 2–4 mil milhões de euros por ano. O capital restante seria angariado junto de fundos soberanos desejosos de cobrir a sua própria exposição ao duopólio sino-americano: a Noruega, capaz de conjugar o poder de fogo do seu fundo de 1,8 biliões de euros com os seus ativos hidroelétricos, ou os Estados do Golfo, cujo interesse é já visível na presença do fundo emiratense MGX no capital da Campus AI, ao lado da Mistral, da Bpifrance, o banco público de investimento francês, e da Nvidia.
3. Um guardião da capacidade de treino
Trata-se de uma reformulação mais exigente do papel de fornecedor de recurso. A função estratégica da Mistral, do ponto de vista do Estado, não reside no seu catálogo de modelos, mas no facto de ser hoje o único lugar na Europa onde o saber-fazer do treino de grandes modelos, uma forma de capital humano e coletivo que não se compra em dezoito meses, existe e se renova. Esse saber-fazer torna-se ainda mais precioso à medida que a via da destilação para a recuperação se fecha: amanhã, ou se saberá treinar, ou se será totalmente dependente.
A base de contratação pública plurianual (defesa, segurança, funções essenciais do Estado) deve ser dimensionada e contratualizada para desempenhar esta função: manter uma equipa de craveira mundial em condições de treino contínuo, a uma distância razoável da fronteira, contra marcos de capacidade verificáveis. Concretamente, isto significa um compromisso firme de compra de 1,5–2 mil milhões de euros por ano durante cinco a sete anos, acrescido de computação de treino dedicada de 0,5–1 mil milhões por ano, ou seja, 2–3 mil milhões de euros por ano no total. Através desta alavanca, o Estado compra uma opção. A fórmula comporta uma contrapartida exigente: o apoio é condicional e reversível. Se o fornecedor designado falhar duradouramente os objetivos fixados, o contrato pode ser transferido para outro veículo, um consórcio, uma nova estrutura ou uma equipa recomposta em torno da mesma infraestrutura. A aposta é numa capacidade, onde quer que ela esteja, não numa empresa. Sem um guardião dessa capacidade, a opção de fronteira não existe, por muito capital que esteja disponível no dia em que se quiser exercê-la.
4. Uma capacidade soberana de avaliação e a cartografia das dependências
Avaliar de forma independente o desempenho real, os modos de falha e os usos críticos dos modelos mais avançados custa cerca de 100 milhões de euros por ano à escala europeia. Esta avaliação condiciona a classificação oficial dos usos (aqueles em que a dependência é aceitável, os que exigem um recurso e os que o excluem), a credibilidade das negociações de acesso e, sobretudo, a leitura dos indicadores de que depende a decisão de exercer a opção. É o sistema nervoso da doutrina, o que a torna operacional e utilizável.
5. A negociação coletiva de garantias de acesso
Vale a pena precisar o que daria à Europa uma alavanca real, contra a ideia feita de que a dimensão do mercado europeu basta. Onde a computação é escassa, a perda dos clientes europeus afeta os laboratórios americanos apenas marginalmente: realocam sem dificuldade a capacidade libertada para a procura doméstica ou para a sua própria investigação. O estatuto de «comprador interessado» é, portanto, estruturalmente inofensivo.
O verdadeiro pivô estratégico da Europa está noutro lado. Está, antes de mais, na sua oferta de infraestruturas: a Europa, e a França em particular, pode oferecer aos fornecedores americanos um recurso de que estes carecem gravemente, a saber, sítios ligados à rede e eletricidade descarbonizada abundante, em troca de garantias contratuais de acesso aos melhores modelos. Este mecanismo tem uma propriedade assimétrica preciosa: uma vez construído o centro de computação em solo europeu, o capital investido torna-se refém da relação. Um fornecedor que faltasse aos seus compromissos ficaria com milhares de milhões em ativos privados de eletricidade, ao passo que o governo norte-americano, se tentasse impor restrições, esbarraria no poderoso lobbying das suas próprias empresas.
A segunda alavanca é uma coligação de pontos de estrangulamento industriais. O monopólio da ASML não está sozinho; a cadeia mundial de valor dos semicondutores depende também das óticas da alemã Zeiss, dos lasers da alemã Trumpf e das arquiteturas de memória das sul-coreanas SK Hynix e Samsung. Coordenada entre Haia, Berlim, Seul e Tóquio, esta posição coletiva tem um peso geopolítico que a mera procura comercial já não tem. A esta arquitetura devem juntar-se as cláusulas contratuais clássicas: prazos de pré-aviso, continuidade do serviço, depósito dos pesos dos modelos junto de um terceiro de confiança (escrow) em caso de corte de acesso, e uma condição demasiadas vezes posta de lado, a segurança absoluta das redes europeias, pois nenhum laboratório confiará os seus modelos mais valiosos a uma infraestrutura tida por permeável. Nenhuma destas garantias equivale à soberania plena, e os acontecimentos recentes lembram que um acesso concedido pode ser revogado. Mas, combinadas com a frota de inferência e com a guarda da capacidade de treino, elas mudam a estrutura do jogo: um corte de acesso já não condena a Europa à paralisia; impõe ao fornecedor um custo de mudança proibitivo. A dissuasão económica não elimina a dependência, torna cara a sua exploração.
No total, o custo deste alicerce para a França e os seus parceiros ascende a 5–7 mil milhões de euros por ano, cerca de 0,2% do PIB francês. Esse número deve comparar-se com os 1,5% exigidos apenas pela componente pública do plano maximalista, e com os 4,5% a 8% do seu custo total. Em cinco anos, a nossa abordagem mobiliza 90–135 mil milhões de dólares, financiados esmagadoramente pelo setor privado e apoiados em receitas de exploração. Onde o sprint compromete sobretudo dinheiro público, propomos mobilizar principalmente capital privado, garantido por ativos produtivos e rendimentos operacionais. Com esta trajetória de robustez em marcha, passemos aos dois cenários maximalistas.
Ramo A: se a comoditização se instalar, passar à ofensiva através da difusão
Se os próximos dezoito meses confirmarem a hipótese incremental, marcada por desempenhos convergentes, capacidades comoditizadas e uma guerra de preços de que o reposicionamento da Meta é o indicador avançado, o centro de gravidade estratégico deslocar-se-á definitivamente para a difusão, ou seja, a adoção efetiva da IA em toda a economia. Como estabeleceu o relatório Draghi, o fosso de produtividade europeu é tanto um fosso de adoção como de produção. O bilião de euros de despesa anual referido por Arthur Mensch será captado pelos modelos efetivamente implantados no terreno, não necessariamente pelas arquiteturas de fronteira mais pesadas. Nesse contexto, o custo de utilização, a rapidez de execução, a integração nos processos de negócio, a conformidade regulamentar, a localização dos dados e o domínio dos fluxos de trabalho agênticos tornam-se as variáveis decisivas, todos eles domínios onde os atores europeus podem construir uma vantagem comparativa duradoura. A nacionalidade do fornecedor conserva, de resto, uma importância estratégica maior no que respeita ao lugar onde é contabilizado o valor gerado na Europa, à exploração dos dados de utilização para melhorar os modelos futuros e à resiliência face a potenciais restrições.
Neste cenário, várias alavancas devem ser acionadas de imediato. Primeiro, as alavancas públicas que aceleram a difusão dos usos da IA: o preço da eletricidade, determinante-chave do custo de utilização; a contratação pública no papel de cliente-âncora; a administração, que continua a ser o maior comprador de serviços intelectuais do continente; a estruturação de bens comuns de dados setoriais na saúde, na indústria e na mobilidade; o esforço de formação; e uma revisão regulamentar que encoraje ativamente a implantação operacional.
Segundo, a preferência europeia deve ser calibrada com rigor para não atuar como travão à difusão. Uma preferência generalizada encareceria artificialmente a IA para toda a economia num momento em que a difusão ampla é essencial. Pior, uma preferência cega arriscaria equipar os hospitais, as redes e as administrações da Europa com ferramentas de ciberdefesa de segunda categoria enquanto as capacidades ofensivas avançadas se banalizam. A preferência deve, portanto, ser duplamente delimitada: reservada aos usos críticos identificados pelo alicerce acima, e condicionada a limiares de desempenho verificados soberanamente. Nenhum mecanismo de preferência deveria aplicar-se sem um piso de desempenho: se o ator europeu se revelar incapaz de manter o nível exigido num dado segmento, a cláusula é automaticamente suspensa. É uma condição-chave para alinhar a preferência económica com os imperativos de segurança que ela pretende servir.
Construir esta doutrina exigirá pesar numa relação de forças já travada mas ainda inteiramente em aberto. O Cloud and AI Development Act, apresentado a 3 de junho de 2026 como peça central do Tech Sovereignty Package, propõe um quadro de soberania de quatro níveis para a contratação pública de cloud, mas o texto é ainda apenas uma proposta: o seu conteúdo real será decidido na negociação entre o Parlamento Europeu e o Conselho, onde o nível efetivo de exigência permanece disputado. A recomendação aqui formulada visa, pois, influenciar essa negociação, mais do que persuadir uma Comissão que falaria a uma só voz, dado que a arbitragem interna entre uma direção-geral do mercado interno (DG GROW) mais favorável a uma política industrial assertiva e uma direção-geral da concorrência (DG COMP) mais apegada à neutralidade concorrencial continuará a moldá-lo.
Ramo B: o cenário da fuga e o exercício da opção
Se os indicadores de desempenho dos modelos confirmarem, pelo contrário, o cenário da fuga, marcado por fossos crescentes nas tarefas de longo horizonte e agênticas, saltos de desempenho repetidos, um esgotamento das arquiteturas abertas e um endurecimento dos controlos de acesso por decisão americana ou chinesa, o esforço de fronteira fica plenamente justificado. O alicerce terá então sido concebido precisamente para tornar possível essa ambição, a menor custo e menor risco. Este ramo retoma a substância do plano maximalista, mas aciona-o no momento em que o projeto se tornou uma opção certa e vencedora, em soberania, tecnologia e comércio.
Distinguir-se-ia de um sprint imediato em cinco pontos.
Primeiro, o ponto de partida está desimpedido: a infraestrutura energética, os sítios ligados à rede, a frota de inferência e as equipas de treino já existem. O custo adicional recai exclusivamente sobre a computação de treino propriamente dita, preservando os fundos públicos durante a fase de arranque. Exercer a opção não torna a fronteira barata; garante uma decisão informada, um terreno preparado e um encargo partilhável.
Segundo, o gatilho assenta em marcos empíricos observados e não numa aposta teórica. E o contexto geopolítico que forçasse o exercício da opção reconfiguraria também os equilíbrios subjacentes: um endurecimento do acesso ditado por Washington legitimaria a coligação, dissiparia as hesitações de parceiros paralisados pelo receio de melindrar o aliado americano e aceleraria o aparecimento de arquiteturas de chips alternativas.
Terceiro, a coligação assumiria uma forma mais cerrada, de geometria variável, estruturada em torno do guardião de capacidade e não de um novo organismo criado de raiz. O Estado atuaria como garante do controlo estratégico, não como dono de obra científico. A filosofia do CEA invocada pelo plano é a certa, mas o seu mecanismo de tratado, direitos de acesso garantidos em troca de um bilhete de entrada financeiro, deve estender-se para lá da União Europeia. Deveria incluir o Reino Unido, a Suíça e a Noruega pela sua perícia e pela sua energia, o Japão e a Coreia do Sul pela cadeia de abastecimento de semicondutores, e os Estados do Golfo pelo seu capital. Todos estes países partilham um interesse vital: contornar o duopólio sino-americano.
Quarto, o financiamento apoiar-se-ia na estrutura já testada para a frota de inferência, com capital paciente dos grandes fundos soberanos, remunerado através de direitos de utilização garantidos e não de meras promessas de retorno financeiro.
Quinto, o objetivo estratégico já não assentaria na promessa incerta de «juntar-se aos líderes em três anos», cuja fragilidade a recente dinâmica de mercado expôs. A ambição seria juntar-se ao grupo da frente no prazo de meia década, numa curva de aprendizagem realista, coerente com a história industrial das recuperações tecnológicas intensivas em capital.
09 | Gatilhos e a governação da decisão
Uma doutrina de opção nada vale se nenhum órgão vigiar os seus indicadores críticos e estiver habilitado a acionar a execução. É precisamente esse o ponto cego do debate atual, que acumula análises estratégicas sem se dotar de um braço decisório. Para o remediar, a nossa proposta assenta em três disposições concretas, unificadas por um princípio transversal: a geometria variável. Nenhum dos eixos que se seguem deve ficar dependente da unanimidade dos vinte e sete Estados-Membros, cujos interesses nacionais são demasiado divergentes para sustentar uma política de poder nesta matéria. Um núcleo de Estados dispostos deve ser o ponto de partida.
Primeiro, a pilotagem exige um painel público de cenários, operado por uma autoridade soberana de avaliação que trabalhe com o AI Office europeu mas independente da sua supervisão. Este instrumento mediria objetivamente a evolução dos fossos de desempenho nas tarefas agênticas complexas, e não apenas as classificações de preferência; a frequência e o alcance das restrições de acesso americanas e chinesas; a vitalidade do pipeline de modelos abertos; o endurecimento das proteções contra a destilação; a taxa de penetração dos agentes autónomos na economia real; e a maturidade industrial das alternativas à Nvidia. Este painel seria revisto trimestralmente face a critérios predefinidos cuja ultrapassagem acionaria os protocolos pertinentes.
Segundo, a governação deve assentar num mandato de decisão claramente identificado e deliberadamente flexível. Os Estados envolvidos no cofinanciamento, europeus ou não, formariam um conselho de contribuintes, enquanto a Comissão Europeia prestaria apoio técnico e jurídico sem deter veto. É a arquitetura comprovada dos grandes êxitos industriais do continente, da Airbus à cooperação espacial, e o oposto das iniciativas multilaterais dissolvidas na governação. A decisão de lançar o esforço de fronteira é política e orçamental. Deve apoiar-se em cenários quantificados e mantidos continuamente atualizados, para que não seja improvisada na urgência de uma crise de acesso.
Terceiro, o dispositivo deve incluir uma componente privada, pois a criticidade destas tecnologias afeta primeiro as empresas. Os conselhos de administração europeus devem tratar o acesso aos modelos como um risco maior de aprovisionamento. Isso significa implementar políticas de inferência com duplo fornecedor, testar com rigor planos de continuidade que incluam a passagem a modelos operados sob jurisdição europeia, e introduzir cláusulas contratuais vinculativas de pré-aviso. Esta caixa de ferramentas operacional deveria ser construída retirando todas as lições do batismo de fogo sofrido nesta primavera, com a suspensão parcial do acesso ao Mythos e ao Fable.
O preço da independência, e a ordem pela qual é pago
A fórmula gaullista invocada em apoio do sprint, «custa muito caro, mas é o preço da independência», corta nos dois sentidos. A dissuasão nuclear foi uma aposta tecnológica audaz, mas a sua força residiu na capacidade de converter uma dependência inicial (a água pesada norueguesa exfiltrada em 1940, a perícia balística alemã recuperada em 1946) numa fileira nacional fechada em quinze anos, da fábrica de plutónio de Marcoule (1956) aos mísseis dos silos do planalto de Albion (1971). Esse fecho foi possível porque a França abandonou a tecnologia de água pesada, dependente de abastecimento externo, a favor da fileira de reatores de grafite-gás.
A objeção fundamental à busca de um modelo de fronteira no curto prazo não diz respeito apenas ao custo, mas à sequência do investimento. No nosso entender, o alicerce que o torna possível deve vir primeiro: energia, infraestruturas, competências e instituições de decisão. A prioridade pertence ao que leva tempo. Se as hipóteses maximalistas se confirmarem, esta abordagem terá pelo menos preparado o terreno: o sprint encontrará então parceiros determinados e um mercado de componentes potencialmente liberto dos monopólios de hoje.
Num mundo incerto, a soberania tecnológica e industrial não passa por uma aposta maximalista, mas por um plano suficientemente resiliente para acomodar todos os cenários tecnológicos. Ou seja, a capacidade de prosperar se a tecnologia se comoditizar, de nos protegermos se o acesso se fechar, e de entrar na corrida da fronteira no momento certo. Este alicerce industrial, proposto como valor de opção, custa cerca de dez vezes menos do que o sprint que torna possível, e não requer a autorização de ninguém em Washington.
Notas
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Lenny Benbara, Baptiste Lefort e Eric Hazan, «Pourquoi l'IA c'est Thémis plutôt que Prométhée» [Porque é que a IA convoca Témis e não Prometeu], Le Grand Continent, 28 de julho de 2026.
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A Meta lançou o Muse Spark 1.1 no início de julho de 2026, apresentado na imprensa como uma oferta de baixo custo destinada aos usos massivos. Ver Harshita Mary Varghese e Katie Paul, «Meta debuts Muse Spark 1.1 model with preview open to developers», Reuters, 9 de julho de 2026.
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«AI Office publishes frontier AI experts' conclusions on EU competitiveness, sovereignty and security», Comissão Europeia, 15 de julho de 2026.
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Sobre o Mythos, as suas excecionais capacidades de cibersegurança e a restrição do seu acesso (Project Glasswing).
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METR, «Measuring AI Ability to Complete Long Tasks» (2025): a duração das tarefas concluídas autonomamente com 50% de fiabilidade duplica aproximadamente a cada sete meses.
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Berber Jin, Lauren Thomas e Kate Clark, «Stripe in Talks to Buy Buzzy AI-Model Marketplace OpenRouter», The Wall Street Journal, 23 de julho de 2026.
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Audição de Arthur Mensch, cofundador e diretor-geral da Mistral AI, e de Audrey Herblin-Stoop, diretora de assuntos públicos e comunicação, Assembleia Nacional francesa, 12 de maio de 2026.



